Tuesday, May 29, 2007

A Cereja do Bolo

Leão de Ouro para todos aqueles capazes de vislumbrar no Festival de Cannes o que talvez seja uma das melhores coisas que ele tem para oferecer. A desculpa perfeita para dar uma passada em Paris. Ou fazer topless nas pedrinhas quentes da Cotê D'Azur. Ulálá.

O Anel

Quem não é publicitário e nem conhece ninguém que circula por esse meio, não vai entender. Quem não leu ou assistiu à trilogia O Senhor dos Anéis, também periga não saber do que eu estou falando.
Ressalvas feitas, vamos ao ponto.
Como colocou uma sábia amiga minha outro dia, o desejo e busca por um leão no Festival de Cannes é equivalente à busca pelo Anel de O Senhor dos Anéis. Esse desejo desenfreado por fama e glória e aval sei lá de quem e sei lá do que, despertam o que há de pior, de mais pequeno e lamentável na grande maioria dos criativos. (Com exceções, claro. Leia-se gente que não se leva tão a sério assim) E vamos combinar, como o quality assurance da população em geral está deixando a desejar e a maioria dos seres peca no quesito humano, a coisa fica preta.
Cannes é um festival importante, importantérrimo até. Ganhar um leão é o máximo, pode fazer diferença na carreira, trazer reconhecimento coisa e tal, mas é só isso. Nada mais do que isso.
Tem gente que ganha e não merece. Tem gente que não ganha e merece. Tem gente que recebe propostas incríveis de trabalho depois de um leão. Tem gente que não recebe propostas de trabalho depois de um leão (muito menos incríveis). Tem a maioria que concorda que a peça X é o máximo e por isso ganhou. Tem outra maioria que concorda que a peça X é o mínimo e não devia ter ganhado. Tem de tudo. Deslumbrados de Plantão, Rancorosos e Eternos Injustiçados, Bem Intencionados e Marinheiros de Primeira Viagem.
Independentemente da figura em questão, é por vezes curiosíssimo e na maioria delas profundamente aborrecido assistir de camarote às reações que o prêmio suscita.
Particularmente, não vejo a hora do dia 22 de junho chegar e da temporada de caça acabar. Porque convenhamos, my precious: uma moeda é feita de dois lados e quem dá tanta importância assim pro sucesso terá que dar a devida importância ao fracasso. Haja álcool ou lenço.

Monday, May 28, 2007

Bem feito

Meu desgosto por shopping centers tem aumentado vertiginosamente.
Quando o carro embica na catraca e eu aperto o botão do papelzinho do estacionamento, começo a ficar desconfortável. Apesar de imediatamente guardá-lo num lugar seguro e de fácil acesso, inevitavelmente ficarei procurando em todos os compartimentos da bolsa e da calça e da jaqueta na hora de pagar, com a nítida e crescente sensação de que desta vez perdi mesmo e vou mesmo ter que pagar a multa. É verdade, para pessoas desorganizadas já existe as maravilhas do Sem Parar e eu deveria adquirir um, mas do males, esse é o menor.
A quantidade de grosserias que uma pessoa é obrigada a aguentar num shopping center é diretamente proporcional ao poder aquisitivo dos frequentadores. Em sendo assim, prepare-se para uma saraivada de bolsadas se for ao Iguatemi. Depois de algum tempo lá, fico tão irritada e deprimida com o desprezo do ser humano por seu semelhante, que quero sair correndo. E esse sentimento não é em nada atenuado pelas lojas com coisas maravilhosas e preços exorbitantes. Tem gente que compra malha de três mil reais? Tem comprador para pares de sapato de novecentos? Tem. Provavelmente aquele projeto de perua com salto agulha que quase nocauteou você com sua Louis Vuitton e nem sequer olhou pra trás, nem mesmo para reclamar que você se atreveu a se posicionar no caminho dela.
No meio da tentativa vã de achar algo legal para dar de presente, num preço acessível, você se vê cansada e com fome e aí comete o erro fatal de se direcionar para a praça de alimentação. A comida vai ser cara para o que é, você vai se ver com uma bandejinha em punho e vai ter dificuldade pra arrumar um cantinho onde possa engolir seu pão de batata com um pouco de dignidade. Sem falar do excesso de decibéis que habitam o local. Ninguém merece.
Foi isso que vivi ontem, em pleno domingão. E a experiência foi coroada pela decisão impensada de assistir a Homem Aranha III no Iguatemi PlayArte. O ingresso é quase tão caro quanto o do repaginado Cinemark, com a diferença de que o cinema é uma mistura curiosa de cheiro de xixi e pipoca com manteiga. E eu vou falar, o filme não ajudou. Eu não estava esperando nenhum Ettore Scola, estava esperando ver um filme de entretenimento, cheio de efeitos especiais, do único jeito possível (para mim) de apreciar o gênero: numa tela bem grande com som dolbi stereo. Mas nem todo o efeito especial do mundo deixou o filme menos ridículo. Supostamente, o enredo central é o fato do Homem Aranha (vivido por Toby Maguire) se ver confrontado com seu lado negro e ter que resistir a ele e retornar ao louvável caminho do bem. Muita areia é jogada nesse dito enredo “central”. E muita areia não é força de expressão. Tadinho do Toby. Ele não convence como mau e não convence como gostoso. Porque não é. É tudo uma grande baboseira que demora horas pra acabar.
Bem-feito pra mim e minha idéia de jerico de ir ao shopping mais caro por metro quadrado da cidade, em pleno domingo, e ainda assistir a um blockbuster dos mais duvidosos.

Wednesday, May 23, 2007

Na Cama

Na Cama, como o próprio título já diz, é um filme que se passa entre quatro paredes, em meio a lençóis, num quarto de motel.
Mas não é exatamente um filme sobre sexo, apesar de sexo não faltar, mas um filme sobre intimidade, que para bom entendedor não tem necessariamente nada a ver com sexo. Porque se pode transar com alguém da forma mais explícita e desinibida e manter o íntimo totalmente resguardado.
Matias Bize conseguiu fazer um filme na cama sem ser vulgar. Daniela (Blanca Lewin) e Bruno (Gonzalo Valenzuela) se conheceram momentos antes de irem para o motel, quando estavam saindo de uma festa. Ela estava esperando um táxi e ele ofereceu uma carona e sabe como é, né? O trajeto desembocou no motel.
Os dois têm razões pessoais para acreditar, ou ter certeza, de que aquele é mesmo o que se denomina one night stand e se jogam na relação com prazo determinado para terminar como se não houvesse amanhã. Sem querer, tornam-se cada vez mais íntimos, querendo, se envolvem cada vez mais, com uma liberdade reservada aqueles que não precisarão depois se perguntar “e agora? Socorro. Onde é que isso vai parar?”, simplesmente porque não vai ter depois. Ou seja, o medo do que poderia vir a significar uma intimidade compartilhada ficou pra fora do quarto.
Pra quem não tem medo desse tipo de coisa, não sei o que vai achar do filme, mas pra quem tem, cala fundo.

Wednesday, May 16, 2007

Tá implícito

Não existe coisa pior do que casal explícito. Gente, amor é muito melhor quando é implícito, sabe? Não, eu não quero saber quantas rotações a língua de ninguém dá durante um beijo demorado enquanto tento tomar o meu vinhozinho na mesa ao lado.
Esse assunto veio à tona depois que li o post do meu amigo no ótimo Man in the Box http://www.maninthebox.blogger.com.br/. Nada mais uó do que casal que fica se agarrando no meio da via pública, tipo não-posso-me-conter-até-chegar-em-casa.
Pensando melhor, tem coisa pior, sim. Quando o babado vira o que os antigos costumavam denominar de “tatibitati” e eu chamo de falta de ter o que fazer pura e simples. “Moreco, passa a coquinha pra sua tchutchuzinha? Passo, sim, glubiglubi. Mas só se você me dar um beijinho bem molhadinho bem aqui na frente das criancinhas e dos velhinhos indefesos”.
O que me lembra um episódio patético que vivi na faculdade. Estava eu indefesa (eles adoram pessoas em momentos de fragilidade e minoria), cansada e sem carro quando um desses casais bucólicos me ofereceu uma carona. Ela estudava comigo, tinha 3 metros de altura, 5 metros de cabelo e 1 neurônio e ½. Ele não estudava comigo, tinha ½ metro de altura, nada de cabelo e no máximo 1,6 neurônios. Ela era ocidental. Ele, oriental. O local, a avenida da raia da USP, Alto de Pinheiros, São Paulo capital.
Agora vem o desafio, caro(a) leitor(a). Tente decifrar o que a mocinha proferiu, enquanto eu, no banco de trás, tentava ignorar as “bitoquinhas”, os “gemidinhos” e a babaquice generalizada:
“Viti pupi, a ombadinha da upi, faqui, puqui, puqui”. Tudo isso proferido num tom que uma criança de 2 anos teria vergonha de usar.
Hmm, difícil, né? Vou dar uma dica pra ajudar na tradução. A raia é uma avenida que tem diversas lombadas para impedir a alta velocidade dos motoristas e consequentes possíveis atropelamentos.
Conseguiu? Se você é um ser poliglota e a resposta foi afirmativa, quero muito dar os parabéns. Se for uma pessoa normal, aqui vai a tradução: “Viti” do nome próprio Vitor. Até aí, tudo bem. “Pupi”, nunca fui capaz de decifrar a onomatopéia. “Ombadinha”, diminutivo de lombada. “Upi”, sigla equivalente da Universidade de São Paulo, também conhecida como USP, com pe mudo, não se esqueça. “Faqui”, terceira pessoa do presente do indicativo do verbo fazer. “Puqui, puqui”, mais uma onomatopéia que alude ao barulho do veículo ao passar sobre o relevo da lombada. Em bom português de gente: “Vitor, a lombada da USP faz...”, me recuso a escrever o resto da frase.Detalhe, o casal que na época era noivo e ALTAMENTE apaixonado, casou logo após a nossa formatura. Casaram, mudaram, tiveram um casal de gêmeos na sequência e também na sequência tiveram separação litigiosa. Ou você esperava outra coisa num caso desses?