Tuesday, August 21, 2007

Um Caso de Desamor

A rua estava finalmente deserta, desabitada. A madrugada se despedia lentamente da manhã, que se anunciava implacável e gloriosa no horizonte. Todos dormiam tranqüilos os últimos instantes da noite, com a exceção de Maria, que mantinha os olhos fixos e marejados na calçada úmida, que avistava da janela do seu quarto. A cada minuto que passava, mais cansada ficava e menos vontade tinha de dormir.
Tinha desistido de precisar o momento anterior à sua decisão de abandonar a festa sorrateiramente, pela porta da frente mesmo, já que todos estavam muito ocupados em celebrar o seu aniversário, esquecendo-se de que ela mesma não estava mais ali, mesmo antes de ter deixado o apartamento.
Não havia o que comemorar. Pensava com ironia nos seus muitos sonhos que tinham sido pisoteados no asfalto gasto e esburacado, nas esperanças que foram carregadas à força pelas enchentes, para depois ressurgirem fétidas e irreconhecíveis no leito do rio. Nos rostos empalidecidos e ausentes que era obrigada a encarar de perto em ônibus abarrotados. Na dor muda dos famintos, que, como ela, tinham fome principalmente de um tempo melhor.
Todos os anos no seu aniversário, orgulhava-se dele coincidir com o da cidade que tinha trocado pela sua terra natal. A cidade com canto de sereia. A cidade que de tão grande não tinha espaço para gente pequena. E gostava de pensar que os fogos de artifício eram para ela, mas hoje sabia que eram apenas isso – um artifício.
De repente, sorriu. Um acalanto certeiro começou a aquecer seu coração. E se sentiu acompanhada na sua solidão, com a certeza de que a cidade também estava exausta e triste com aquela festa feita a sua revelia. Adormeceu. Não havia o que comemorar.

1 Comments:

Blogger geragoncalves said...

... amore mio

se não há

a gte trata de inventar...

saudades!! bacios

3:00 PM  

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