Monday, September 10, 2007

Pombinhos

Era uma moça dos seus vinte e tantos anos. Estatura mediana, corpo mediano, inteligência mediana. O rosto, totalmente comum, desses que vemos aos borbotões no dia a dia e que acabam virando papel de parede em meio aos outros elementos do cenário. Mas Cidinha não tinha essa visão de si mesma. Na linguagem corrente, Cidinha “si achava”, e como tal que acreditava ser, tinha um porte altivo, rebolava excessivamente, carregando consigo um corpo que não condizia com sua atitude. Para completar todo esse cenário ordinário, Cidinha era casada com um moço tão mediano como ela. Mas nenhum dos dois sabia disso, então, tudo bem.
Cidinha e Breno, seu cônjuge, tinham se casado cedo e todas as sandices da juventude tinham sido feitas a deux. Os porres e os pés na jaca em todo tipo de jaca que conseguiam encontrar. Em outras palavras, tinham vivido juntos a rebeldia e o desvario, mas agora que a calmaria começava a se anunciar, não sabiam muito o que fazer um com o outro. E um descompasso começou a se instalar, como se fosse um gás tóxico entrando por uma fresta mínima.
Cidinha começou a olhar para outros caras, Breno nunca tinha parado de olhar para outras garotas. Cidinha fantasiava ir um pouco além dos olhares, Breno considerava parar de ir além e ficar só nos olhares. E assim, sem saber, eles se distanciavam a cada dia.
Foi Breno a notar primeiro o distanciamento. De alguma forma que não sabia como explicar, sentia que sua Cidinha já não era mais tão somente sua. E quando mencionou o fato a ela, a reação de Cidinha não poderia ter sido mais reveladora. Defendeu-se com tanta veemência que ficou claro para Breno, que nem sequer tinha tido a intenção de acusá-la para começo de conversa, que ali tinha. E repente juntou os pontos num flash back veloz, como se formasse uma figura numa cartilha infantil. Ela estava tendo um caso. Provavelmente era alguém do trabalho, já que Cidinha não frequentava muitos lugares. Meu Deus, era o cara que trabalhava no departamento da sua melhor amiga. Aquele cujo nome tinha estado sempre presente em todas as coisas que ela contava do seu cotidiano.
Breno sentiu o gosto amargo de bile subir na boca. Sentiu os olhos turvarem-se e o maxilar enrijecer. Então era isso? Então era assim que ela lhe retribuía toda a sua dedicação, todo o seu amor e companheirismo? Não importava que ele tivesse tido inúmeros casos ao longo dos anos, justamente por isso. Foram inúmeros. Não tiveram a menor importância. Breno nunca tinha comido outras mulheres em todos esses anos de casamento mais do que 1 vez. Mas Cidinha, não. Sua Cidinha tinha um amante só e isso era traição demais.
A partir dessa constatação, Breno passou a não acreditar em nenhuma palavra que ela dizia, mesmo se a ida até a padaria fosse totalmente verdade. Mesmo se o happy hour com as amigas tivesse de fato ocorrido.
Passou a vasculhar a bolsa dela no meio da noite, a ler as mensagens que ela trocava com o amante no celular e ficou com raiva de Cidinha ser tão burra e de se deixar apanhar tão facilmente. Se pelo menos ela se forçasse por esconder a coisa toda, ele se sentiria mais respeitado, mas como Cidinha acreditava que ele acreditava que ela sempre tinha sido e sempre seria só dele, não fazia manobras inventivas para não deixar transparecer as coisas.
E foi então que tudo se deu numa quarta-feira. Cidinha chegou mais tarde com uma desculpa que Breno julgou esfarrapada. Breno fingiu que acreditou. Cidinha disse que tinha uma fome de leão. Breno pediu uma pizza. Comeram a pizza e foram para o quarto. Cidinha disse que precisava de um banho antes de se deitar. Breno fechou cuidadosamente as janelas do apartamento e abriu todas as bocas do fogão.

4 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Descobri seu blog por meio de um link no 'Man in box' e já adicionei a meus favoritos. Adorei.

5:11 AM  
Blogger Olivia said...

Legal, Veruska! Volte sempre ;)

6:33 AM  
Anonymous Anonymous said...

à la bertolucci

acho digno hehe

9:30 AM  
Blogger Bola Preta said...

qq semelhança com a realidade é mera coincidência.

5:56 AM  

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