Thursday, April 26, 2007

Visitinha básica

No dia 9 de maio de 2007, nós humildes brasileiros seremos agraciados com a ilustríssima visita do papa Bento XVI, o chefe supremo da Igreja Católica, o Sumo Pontífice da vez.
Ouvi da boca de Willian Bonner (sim, às vezes, assisto o Jornal Nacional enquanto faço alguma outra coisa) que a visitinha do magnânimo senhor vai custar aos cofres públicos a bagatela de oito milhões de reais. Como? Assim? (Confesso que ao ouvir a informação Willian Bonner conseguiu uma expectadora cem por cento interessada em cada vírgula sua).
Notícias também dizem que a prefeitura de São Paulo vai lucrar alto com o turismo (não se anime, a prefeitura, não os paulistanos) e as empresas que produzem de santinhos a livros do Frei Galvão vão recuperar todo o investimento (e os meus impostos, quem recupera?). Além disso, a visita deve gerar mais de 1.000 empregos temporários no município. E isso é bom. Mas convenhamos, o mínimo que um visitante que custa por baixo essa expressiva cifra pode fazer é gerar algum emprego. Não faz mais do que a obrigação.
Olha, eu tenho zero contra o seu Bento, menos ainda contra o credo e a devoção alheia, mas tudo isso é um despautério. Num país de famintos, doentes sem a menor assistência e desabrigados aos borbotões, quantas bocas seriam alimentadas, quantos hospitais equipados, quantas moradias erguidas com esse oito precedido de um belo cifrão e sucedido por seis zeros? O bem estar dessas pessoas não é justamente o que a igreja diz ter como prioridade?
Mais um dado interessante sobre o assunto: as polícias Federal, Militar e Civil e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), sob o comando do Exército se uniram numa força-tarefa primeira classe, e preparam um pesado esquema de segurança para garantir que tudo corra bem com o visitante. Fiquem com inveja traficantes, bandidos e afins. Nunca nada parecido será destinado a vocês.
Ê, laiá. Como diria Prince: “I don’t wanna be the president, I’d rather be the pope. I don’t wanna be the side effect, I’d rather be the dope”. E dá-lhe ópio.

Monday, April 23, 2007

O Cheiro do Ralo

O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, é um filme estranho. As personagens são estranhas, o protagonista é pra lá de estranho e a metáfora que dá nome ao filme, apesar de ser de uma precisão cirúrgica, é no mínimo exótica.
Lorenzo, representado por um Selton Mello na sua melhor forma, é um cara escroto, que se regozija profundamente com sua escrotidão, a melhor de todas as qualidades, segundo ele parece pensar. Como diz, é um homem frio, que aprendeu a ser frio pela necessidade do oficio. Lorenzo compra objetos usados para depois revendê-los. Tripudia das pessoas que chegam até ele, despreza e trata com escárnio a “história” que os objetos à venda possam conter. Se por um acaso você tivesse um objeto pra negociar com Lorenzo, seria melhor que ele não tivesse história, porque isso iria baixar o preço e renderia insultos.
Lorenzo também é apaixonado por uma bunda. Veja bem, uma bunda e só. Não chega nem a ser por uma bunda que por acaso vem com uma mulher de lambuja, muito menos por uma mulher que tem uma bunda incrível. Não. Ele é obcecado pela bunda em si, como entidade separada do resto do corpo com nome “impronunciável”, que ele nunca consegue sequer registrar.
Lorenzo também tem uma ex-noiva. O casamento era pra dali a um mês. Os convites já estavam na gráfica. “Porque sabe como é mulher, se bobear os convites vão logo pra gráfica”. E com a coitada ele realmente se esmera na sua escrotisse.
O filme tem cores lavadas, excesso de tons de terra, mesmo quando mostra as blusas floridas da dona da bunda mais incrível do paraíso. Extremamente acertado. Combina. Faz eco ao que se passa na tela.
O filme tem um diálogo afiado, muito bem escrito, daqueles que provocam risos às vezes meio constrangidos. Aliás, acho que o cinema todo achou o filme muito mais engraçado do que eu. (Superegos menores que o meu?) Não que não tenha rido ou gostado. Mas, às vezes, o espanto era tanto que não conseguia rir.
O filme já valeria o ingresso pela atuação de Selton Mello e por alguém ter finalmente concretizado na telona a obsessão masculina pela parte inferior traseira do lombo do corpo feminino. Mas ele é mais do que isso. Pra quem quer ver a dimensão humana em todo aquele fedor, pra quem quer perceber o trágico de Lorenzo, de seus fornecedores, de sua vida, de sua própria história, que com certeza é o motivo dele desprezar tanto os objetos encharcados dela (e consequentemente seus donos).
Talvez seja por isso que em alguns momentos eu não tenha achado o filme tão engraçado assim. Seria cômico se não fosse trágico.

Em tempo: o Bill Gates é bem diferente de Lorenzo. Não gosta de bunda. O Word desse laptop se recusou a adicionar a palavra ao dicionário. Pensei que era algum puritanismo que não permitia termos vulgares. No entanto, aceitou que eu adicionasse “escrotisse” e “escrotidão” sem a menor hesitação. Por que será.

Friday, April 20, 2007

Uma questão de pinças

Recebi por e-mail uma frase muito sábia:
"Amigas são como pinças, a gente até pode ter um monte, mas só uma ou duas são ponta firme". E não é que é?
Quantas vezes precisamos de uma pinça d-e-s-e-s-p-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e e não tem nenhuma à vista?
Quantas vezes achamos que estamos abafando de pinça nova (e sempre cara, porque mulher acha que quanto mais cara a pinça, mais firme a ponta) e ela só faz se perder da nossa necessarie?
Quantas vezes recorremos aquela tal pinça que só faz cortar o pêlo ao invés de arrancá-lo?
Ou pior, puxa, causa dor e não arranca coisa nenhuma?
Mas sei lá, nem só de pinças ponta firme vive uma mulher.
Então, a gente vai colecionando uma dourada e menorzinha aqui, uma com a ponta em diagonal ali, uma alemã (que dizem serem confiabilíssimas), uma do camelô e outra que não sabemos de onde surgiu.
Porque, às vezes, é melhor um pêlo fora do lugar cortado rente do que um pêlo dando sopa no lugar errado.

Thursday, April 19, 2007

Adios Los 3 Furones

Os argentinos também têm fila. Filas de 9 quarteirões para entrar em estádios de futebol. E os argentinos também furam fila. Ou tentam. Mas não conseguem quando 2 brasileiras iradas gritam “Los 3 Furones!” “Fuera!” e o pessoal da organização do Quilmes Rock 2007 gentilmente os removem das imediações.
Pois é.
Nem eu acredito que fiz um bate volta com minha amiga para ver o show do Aerosmith em Buenos Aires no último final de semana. Tudo bem que quando compramos o pacote e os ingressos a lenda dizia que eles não viriam ao Brasil, mas até agora me espanto com a extravagância. Coisas que servirão de orgulho pros netos.
Deu pra sentir um cheiro de Buenos Aires, que visivelmente já viu tempos melhores (nunca vi tanto carro caindo aos pedaços por metro quadrado) e visivelmente é muito bonita, com ruas largas e arborizadas (ou extremamente estreitas). Uma cidade baixa, comme il faut.
Não, não comi carne boa em Buenos Aires. Nem de las vacas, nem de los chicos. Não demos suerte com nosso bife de chorizo e papas fritas. Estava frio e meio duro. Mas a vista em Puerto Madera era linda e um bife sempre fica mais mastigável quando o horizonte colabora. (o mesmo costuma acontecer com los chicos)
Voltando ao nome do festival, pra quem não sabe (eu não sabia), Quilmes é uma cerveja. Ruim, amarga, como todas as cervejas. Não adianta. Pra mim cerveja boa é cerveja na garrafa. (Com exceção da Stella, não sei bem porque).
O show foi emocionante, principalmente porque me deu uma nostalgia braba do show que vi em 1994 no Hollywood Rock. Ficava tendo flashbacks dos amigos, do estádio do Morumbi, de um tempo em que tudo era futuro e sonho. Tanto o Steven Tyler quanto eu estávamos em melhor forma. Na época eu era morena e sem maquiagem e ele morena também, com muita maquiagem. Hoje continuo morena, com um pouco de maquiagem e ele virou casaca, está loira, mas a maquiagem continua firme e forte. Sem falar do Botox. Dele, veja bem.