Monday, April 23, 2007

O Cheiro do Ralo

O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, é um filme estranho. As personagens são estranhas, o protagonista é pra lá de estranho e a metáfora que dá nome ao filme, apesar de ser de uma precisão cirúrgica, é no mínimo exótica.
Lorenzo, representado por um Selton Mello na sua melhor forma, é um cara escroto, que se regozija profundamente com sua escrotidão, a melhor de todas as qualidades, segundo ele parece pensar. Como diz, é um homem frio, que aprendeu a ser frio pela necessidade do oficio. Lorenzo compra objetos usados para depois revendê-los. Tripudia das pessoas que chegam até ele, despreza e trata com escárnio a “história” que os objetos à venda possam conter. Se por um acaso você tivesse um objeto pra negociar com Lorenzo, seria melhor que ele não tivesse história, porque isso iria baixar o preço e renderia insultos.
Lorenzo também é apaixonado por uma bunda. Veja bem, uma bunda e só. Não chega nem a ser por uma bunda que por acaso vem com uma mulher de lambuja, muito menos por uma mulher que tem uma bunda incrível. Não. Ele é obcecado pela bunda em si, como entidade separada do resto do corpo com nome “impronunciável”, que ele nunca consegue sequer registrar.
Lorenzo também tem uma ex-noiva. O casamento era pra dali a um mês. Os convites já estavam na gráfica. “Porque sabe como é mulher, se bobear os convites vão logo pra gráfica”. E com a coitada ele realmente se esmera na sua escrotisse.
O filme tem cores lavadas, excesso de tons de terra, mesmo quando mostra as blusas floridas da dona da bunda mais incrível do paraíso. Extremamente acertado. Combina. Faz eco ao que se passa na tela.
O filme tem um diálogo afiado, muito bem escrito, daqueles que provocam risos às vezes meio constrangidos. Aliás, acho que o cinema todo achou o filme muito mais engraçado do que eu. (Superegos menores que o meu?) Não que não tenha rido ou gostado. Mas, às vezes, o espanto era tanto que não conseguia rir.
O filme já valeria o ingresso pela atuação de Selton Mello e por alguém ter finalmente concretizado na telona a obsessão masculina pela parte inferior traseira do lombo do corpo feminino. Mas ele é mais do que isso. Pra quem quer ver a dimensão humana em todo aquele fedor, pra quem quer perceber o trágico de Lorenzo, de seus fornecedores, de sua vida, de sua própria história, que com certeza é o motivo dele desprezar tanto os objetos encharcados dela (e consequentemente seus donos).
Talvez seja por isso que em alguns momentos eu não tenha achado o filme tão engraçado assim. Seria cômico se não fosse trágico.

Em tempo: o Bill Gates é bem diferente de Lorenzo. Não gosta de bunda. O Word desse laptop se recusou a adicionar a palavra ao dicionário. Pensei que era algum puritanismo que não permitia termos vulgares. No entanto, aceitou que eu adicionasse “escrotisse” e “escrotidão” sem a menor hesitação. Por que será.

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

num vi

mas todo mundo (sensato, cabe ressaltar) tem a mesma opiniao: e o filme da vida dele!!!

veremos

verei

1:11 PM  

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