Friday, June 29, 2007

Vontade Própria

Se por acaso você nunca passou pela experiência de um fio de cabelo branco arrancado com um movimento brusco e um grito súbito, não dê nem mais uma letra adiante. Você não tem condições de avaliar a extensão do impacto do primeiro cabelo branco para uma mulher. Está para nascer o cafajeste capaz de traumatizar tanto o nosso amor próprio. O primeiro cabelo branco a gente jamais esquece. Simplesmente porque ele não deixa.
Pode demorar mais, pode demorar menos, mas quando o dia fatídico chega, você está lá desavisada, lépida e faceira, na frente do espelho (sempre o maldito espelho) quando, de repente, tem uma alucinação (ou pelo menos reza com toda a sua força para estar diante de uma desordem dos sentidos). E lá está ele, em toda a sua glória reluzente, que só a cor branca pode proporcionar.
Depois de devidamente removido, você decide passar por cima do episódio e esquecer tudo, mas é justamente aí que o episódio decide passar por cima de você. É um fato curioso da natureza, mas enquanto cabelos bons demoram mais ou menos entre três e noventa e sete anos para crescer, dã, toda mulher sabe disso, cabelos brancos crescem em progressão geométrica. Ou seja, quando tudo estava quase esquecido acontece o famoso olha-eu-aqui-outra-vez. Daí por diante, é uma luta inglória contra um inimigo de poderes incontroláveis e sem classe nenhuma.
Ele não é do tipo que interfona e toca a campainha, entra sorrateiramente e vai discretamente se instalando, gentilmente dando tempo para você se acostumar. Não. Ele entra mesmo com o pé na porta da frente e se aboleta no lugar mais visível que puder encontrar. Você, indefesa, será forçosamente apresentada a toda uma nova categoria de bulbo capilar: o cuneiforme. E descobrirá que eles estão mais pra toras do que pra fios e que têm vontade própria. Meu Deus como têm vontade própria. O jeito é continuar arrancando aqui e ali. Eles sabem que vão ganhar, você sabe que vai perder, mas não perca a pose. O problema é que eventualmente essa atividade lusitana pode desembocar na calvície.
Mas pense bem, se os fabricantes de xampu não param de tirar da cartola linhas inteiras de tratamento para cabelos com problemas que efetivamente não existem, dia desses vão fazer algo de útil e lançar uma linha para os cuneiformes. E, então, será só alegria. A espuma promoverá disciplina e tintura natural e, com apenas algumas lavagens, os safados outrora cuneiformes voltarão ao estado inicial da mais tenra infância. Pelo menos não custa sonhar.

Thursday, June 14, 2007

Tem ou não tem?

Fulano tem berço. Cicrano não tem. Beltrano então, nem se fala. Melhor não comentar. Todo mundo já ouviu isso, até já disse isso quem sabe (eu então, nem se fale). Mas o que esse negócio de ter berço realmente quer dizer? Que o fulaninho em questão teve a sorte não compartilhada por seus compatriotas de ter nascido numa família abastada e de elevado padrão econômico-social? De ter sido balançado sobre material precioso e reluzente quando bebê? Mais ou menos. Porque ter berço mesmo, pelo menos para mim e pra muita gente que eu conheço, quer dizer outra coisa. Uma que não tem nada a ver com ouro nem com saldo bancário.
Na minha cartilha quem tem berço tem educação. Tem compaixão. Tem respeito pelos outros habitantes do planeta. E veja bem, respeito é uma palavra bem ampla. Que inclui um mundo todo de pequenos e grandes gestos. Quem tem respeito não deixa torneira aberta porque a água é escassa e ameaçada de extinção (mesmo em tese podendo pagar uma exorbitante conta no fim do mês). Não pára em fila dupla. Não joga papel no chão. Conjuga a primeira pessoa do plural com a mesma freqüência que conjuga a do singular. Não trapaceia porque é legal fazer os outros de bobos. Não pisoteia e nem espicaça os anteriores na cadeia alimentar. Ter berço não tem nada a ver com ser brega, cafona, rico, pobre, sofisticado ou péssimo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou seja, quem não nasceu em berço de ouro pode ter berço? Com certeza. Quem nasceu em um necessariamente tem? De jeito nenhum. Quem não tem pode comprar? Pode fazer um curso que ensina a ter? Pode dormir sem e acordar com? Não, não e não. Afe, mas então o que faz uma pessoa sem berço? Bem, é triste, mas é verdade. A única coisa a fazer é nascer de novo.

Tuesday, June 05, 2007

Les Mots

Tenho paixão por algumas palavras. Em alguns casos porque dizem a que vieram, noutros porque é bom a sensação de proferí-las, noutros ainda sem explicação alguma. Afeto, às vezes, a gente não explica.
Aliás, se a gente pensar bem, desafeto até tem algumas explicações, mas afeto, no fundo não tem. Porque você gosta daquele seu amigo ou amiga meio desclassificado, moralmente duvidoso, chato pra ninguém botar defeito ? Vou pular a parte em que citaria o fenômeno de paixões que de tão erradas foram as coisas mais certas que a gente teve por algum tempo (ou muito).
Vamos as palavras. Aqui uma pequena lista das minhas :
Irremediável. A gente tem que se acostumar com ela pra tocar a vida de um jeito mais leve. Porque sabe como é o que não tem remédio.
Estapafúrdio. Quer coisa que explica mais o que significa ?
Bosta. Nenhuma merda substititui uma boa bosta quando a gente está fulo. Enche a boca. No bom sentido.
Acepção. Sei lá, acho bonita.
Embatumada. O Houaiss do Uol tá falando que não existe. Vou pesquisar. Mas existe, sim. É aquele bololô que se forma na cavidade abdominal quando comemos demais ou algo que não consegue ser digerido. (Cheguei em casa e pesquisei. O Caldas Aulete offline e em 6 volumes diz que sim, embatumar, verbo transitivo que significa encher de mais)
Uó. Onomatopéia gênio. Ouvi a primeira vez de um amigo gay de uma amiga da faculdade. Isso foi em outra dinastia. Não sei onde anda ela e muito menos ele, mas eles se foram e o uó ficou. Nada descreve tão bem e suscintamente algo que é, enfim, uó.
Esdrúxula. "Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas."
Continuo com a lista depois. Contribuições são bem-vindas.