Tuesday, October 23, 2007

Mostre-se

A 31a Mostra Internacional de Cinema está a pleno vapor. São simplesmente 461 filmes em cartaz de 19 de outubro a 1 de novembro. Ao todo serão 1.180 sessões. E nem se você tirasse férias e se clonasse conseguiria ver tudo. O que, aliás, poderia ser uma perda de tempo porque nem tudo vale a pena, mas como todas as outras mostras da vida, a gente só descobre depois. No caso, depois de ter perdido o ingresso.

Fico um pouco desesperada nessa época e sempre penso que no ano seguinte com certeza vou tirar uns dias de férias nesse período e com certeza vou comprar a credencial de um milhão de dólares. Nem um nem outro nunca aconteceu e olha que esse é um pensamento anual recorrente. Mas tem males que vêm para o bem. Se eu já fico fazendo uma ginástica emocional absurda para decidir o que ver e quando nas noites depois do trabalho e no final de semana (pela impossibilidade do meu corpo e mente ocuparem mais de um lugar ao mesmo tempo), imagine se o problema se agravasse para o dia todo? E eu tivesse ao meu dispor TODAS as sessões? Acho melhor não.

No passado, tinha porque tinha que assistir aos filmes que com certeza vão entrar em cartaz (e o guia da Folha dá até as datas). Não podia nem aventar a possibilidade de me manter inerte frente a nomes como David Cronenberg, Irmãos Coen, Neil Jordan, para citar apenas alguns desse ano. Simplesmente não podia esperar. Hoje já posso e isso abre espaço para ver os outros. Os estranhos. Os desconhecidos (por mim, pelo menos). Os insuspeitos. Atualmente minha seleção obedece aos critérios mais estapafúrdios. Primeiro vou por diretor (Ainda. Vai que tem um estranho conhecido com mais um longa para me deleitar?). Depois vou por procedência. Por exemplo, vou assistir no domingo a um filme de Burkina Faso. Burkina onde? Exato. Em algum lugar da África. Como é que se pode perder um filme dessa localidade tão pitoresca e provavelmente inóspita, também? Pois é, não se pode. Nessas me meto em algumas encrencas e por vezes tenho surpresas deliciosas. Outro critério é o nome do filme. Domingo fui ver “Todas As Coisas Invisíveis”. Achei o nome lindo, dei uma olhada na sinopse e parti pro cinema. Triste de doer. Pesado de doer. Mas bom. Só acho que nem todas as coisas invisíveis são tão doloridas assim. O filme podia se chamar “Quase Todas As Coisas Invisíveis”, ou ainda “Muitas Coisas Invisíveis”.

Mas no fundo o grande barato da mostra para mim são as descobertas, as esquisitices e a fartura. Ah como é boa a fartura. E sempre tem algum aprendizado que extrapola a tela grande.

Domingo, na fila para uma das sessões tinha uma moça na minha frente que puxou papo. Ela era meio perua beirando o cafona. Usava um anel de pedra rosa, jateado, em formato de coração, que combinava com os brincos. Sentiu? Mas não pára por aí. Estava com um salto altíssimo (nada apropriado para uma maratona cinéfila), uma bolsa dessas pequenas (também no tom do anel) que a gente precisa carregar no antebraço. Tudo combinandinho. Enfim, numa escaneada rápida e preconceituosa, diria que ela era desinteressante e perua e que jamais seria vista numa Mostra Internacional de Cinema. Mas lá estava ela. E era interessante. E TINHA a tal credencial para ver TODOS os filmes. E já tinha visto milhares. Inclusive muitos dos que eu queria ter visto. E ainda me deu várias dicas. E no geral foi uma companhia agradabilíssima na espera sempre chatíssima. Logo fiz uma anotação mental de que realmente posso perder muita coisa nessa vida por confiar num julgamento prematuro e preconceituoso que possa fazer a respeito de qualquer coisa ou pessoa. Never judge a book by its cover, baby. Ou julgue, por sua própria conta e risco.

Tuesday, October 09, 2007

Os supersensíveis

Dizem que a vida é dura para quem é mole. Hmmm. Pode ser. Pode ser que ela seja especialmente dura para os moles. Mas eu prefiro achar que ela é dura e ponto. Não que isso seja necessariamente um drama na maioria das vezes.
Com a dureza da vida, todos lidam de forma diversa. Reclamando, encarando, postergando, ignorando, surtando. O que não falta é gerúndio pro tema.
E já que estamos nessa seara, tem também todo o tipo de pele. Peles mais finas, peles grossas, peles tão grossas que mais parecem crostas de elefante. E dependendo da época ou situação, a espessura da pele pode variar consideravelmente.
Ressalvas feitas, me impressiona e exaspera constatar que os mais afeitos a achaques e melindres normalmente não têm nenhuma consideração pela epiderme alheia. Talvez por suporem que como o mundo lhes deve deferência, o resto da população deva ser composto de paquidermes. Tratam todos com a maior das grosserias e ficam chocadérrimos e ofendidérrimos quando recebem na mesma moeda.
Ora pois, antas são eles!

Tuesday, October 02, 2007

Ode as mãos

É verdade que tenho uma predileção por mãos. Presto atenção nelas. Dou valor a elas. Acho delícia mão gordinha de criança. Acho chique mãos com pele alva. Acho que não preciso comentar mãos com esmalte escuro descascado. E dou especial reparo a essa parte do corpo masculino. Enfim, sou uma apreciadora dessas extremidades dos membros superiores. Fico atenta para seu formato, para sua expressão, para quando se movimentam ou descansam suavemente.
Tem gente que nasce com mãos bonitas (e essa atenta observadora é obrigada a dizer que são raros os casos), tem os que nascem com mãos ordinárias e tem também os que deveriam usar luva por puro decoro.
Convenhamos, se as mãos não fossem tão relevantes, não haveria tantas expressões com elas. Certo? E antes que alguém possa meter os pés pelas mãos e dizer que não são tantas assim, mãos à obra.
Atrevo-me a dizer que a gente quase pode julgar o caráter de uma pessoa por elas. Quem tem a faca e o queijo na mão e não faz nada e nem aproveita as oportunidades, não merece muito crédito ou respeito. Porque, às vezes, mesmo com as mãos aparentemente atadas, tem quem consegue ir além. Amigo que é amigo mesmo, e não só purpurina ou farofa, é sempre uma mão na roda num momento de necessidade. E como gratidão é um sentimento nobre que não se ensina, quando uma mão lava a outra, laços são irremediavelmente atados e ninguém fica na mão. É horrível sair de mãos abanando de uma relação, não no sentido material, mas no metafísico mesmo. Ainda mais quando a gente enfia a mão na massa e faz de tudo pra coisa funcionar. Ou não?