Santiago
O documentário Santiago de João Moreira Salles é, sobretudo, um filme de amor. Foi apresentado pela primeira vez em São Paulo hoje, 25 de março de 2007, no 12º. Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade.
No jornal dizia que o diretor estaria presente na sessão. E como admiro muito o seu trabalho e aprecio os artigos que ele eventualmente escreve no Estadão ou na Revista Piauí, fiz questão de comparecer e não permiti que a preguiça de um domingo ensolarado e a alegação de que o filme com certeza entraria em cartaz falassem mais alto.
Vou pular a parte da fila transamazônica para pegar o ingresso, fila exaltada para comprar um mísero copo d’água, fila mais acalorada ainda para entrar na sala de projeção. (Creio que o assunto foi amplamente abordado no post anterior).
Vamos ao que interessa.
Logo de cara fiquei decepcionadíssima quando Amir Labaki disse que João Moreira Salles não estava lá por conflito de agenda ou sei lá o que. Então, Walter Carvalho (aquele da fotografia estupenda de O Céu de Suely e de tantos outros, Santiago, inclusive) leu uma carta que João Moreira Salles tinha escrito para a ocasião. Nada de mais, agradecimentos, etc e tal.
Mal sabia eu, antes do filme começar, que o diretor estaria presente, sim, o tempo todo, de uma maneira bastante pungente e como não me lembro de ter tido a oportunidade de presenciar em outro filme. Explico. O filme conta a história de Santiago, que foi mordomo da família Moreira Salles durante muitos anos na mansão que eles tinham na Gávea e que Santiago gostava de pensar que se parecia com o Palazzo Pitti (a majestosa construção em Florença onde fica o Giardino Bobolli, que abrigou a dinastia Medici do século XVI ao XIX).
O filme em PB é construído basicamente por imagens da mansão já desabitada e vazia e de uma seqüência de 5 dias (acho que 5, talvez 9, não me lembro ao certo) de gravações no apartamento minúsculo de Santiago no Leblon, quando esse tinha mais de oitenta anos (hoje está morto), captadas há mais de 13 anos.
Santiago é uma figura deliciosa. Um homem argentino que, pelo que pude supor falava diversas línguas (muitas vezes tive dificuldade de entender seu português com sotaque carregado e me vali da legenda em inglês). Santiago passou a vida a compilar a história de famílias nobres e de personalidades das mais variadas e das mais diversas procedências. Histórias de pessoas que ele admirava ou até desprezava, num trabalho minucioso e impressionante. Datilografando e registrando incansavelmente fatos dos mais diversos na sua máquina de escrever, que no filme aparece em sua cozinha diminuta.
Como ele mesmo diz, praticamente não via ninguém no dia-a-dia, e também pouco saía do apartamento há mais de 20 anos. No final de sua vida, Santiago era um homem sozinho, mas não pense nem por um minuto que era solitário. Deixa isso bem claro ao acariciar os milhares de páginas de manuscritos dessas histórias da nobreza mundial, cuidadosamente empilhadas e arrumadas com fitas de cetim vermelha que encomendava de Paris. Todos esses calhamaços eram meticulosamente organizados e dispostos numa estante em seu quarto. E, uma vez por semana, esses personagens saíam para “passear” pelo apartamento, para tomar um pouco de “ar fresco”.
Santiago era um homem bastante culto, conhecedor de música, que tocava piano e era apaixonado por mestres como Rafael e Giotto. Como será que adquiriu essa cultura? Na convivência com a família Moreira Salles e seus ilustres convidados? No início do filme ele conta uma viagem à Itália e uma longa estada em Piedimonte, na casa de uma avó. Não fica claro o quanto de escolaridade ele teve, nem tampouco como se tornou mordomo, mas certamente todo seu vasto conhecimento vinha de uma busca incansável por conhecer esses personagens que teimava em fazer reviver, ou melhor, em manter vivos. Ouso dizer que era como se Santiago vivesse numa atemporaliedade, suspenso no ar, gozando de uma memória vivíssima e pouco comum a pessoas de sua idade.
Poderia citar ainda muitos detalhes desse homem tão singular, tão autêntico, que usava fraque para tocar piano quando os patrões não estavam porque, afinal de contas, como conta para o então menino João, tratava-se de Beethoven. Mas a beleza do filme não está somente na figura maravilhosa do personagem/pessoa que Santiago é. E sim na intimidade que é revelada.
Intimidade do diretor enquanto diretor em busca de realizar o projeto de um filme, na intimidade de um homem que revela memórias da sua vida, da sua casa de infância e adolescência, de sua família, de seus irmãos. Ele é o narrador, que vai nos contando o plano inicial do documentário, como ele provou ser inadequado uma vez na ilha de edição, como voltou a ele depois de 13 anos. O título do festival é emblemático do filme, porque é um documentário sem máscaras, que mostra erros, desacertos, indecisões e indagações do processo todo.
É a voz do diretor, na primeira pessoa, que nos conta o filme inteiro, que serve como fio condutor e que vai generosamente revelando seu processo criativo, suas dúvidas, suas emoções. Mas de quem seria aquela voz que falava na primeira pessoa? Ao final do filme, o narrador “diretor”, conta-nos o que o seu irmão Fernando tinha escrito a respeito da morte do pai de ambos, mas, na realidade, descobre-se nos créditos que Fernando Moreira Salles era quem falava como se fosse João e que, portanto, leu como se fosse o irmão algo que ele próprio tinha escrito. Durante as filmagens com Santiago, ouvimos apenas a voz de uma mulher (que esqueci o nome) e, portanto, acabamos por ter a impressão que era ela que “dirigia” o filme, dando instruções ao personagem do que fazer, de como se portar, pedindo para repetir trechos, fazer determinadas coisas. Onde estava João Moreira Salles? Não era ele quem estava dirigindo o filme? O que fazia quando todas aquelas imagens estavam sendo captadas? Não sei, não tenho como responder. Mas isso pouco importa. Por que ele estava ali, sim, talvez da maneira mais veementemente presente que podia estar. Porque o filme é sobre ele também, e isso não é camuflado em momento nenhum. O texto/roteiro que ouvimos é dele, a história de Santiago se mistura com sua própria.
Por que João Moreira Salles resolveu um dia fazer um filme sobre Santiago? Por que ele era uma figura ímpar? Um material em potencial preciosíssimo? Sim, certamente, mas em minha opinião, principalmente por amor. No final da sessão o filme foi, com razão, calorosamente aplaudido. E creio eu saímos todos também apaixonados por essa bela história de amor, de memória, de nostalgia. Obviamente falo por mim, apesar de suspeitar que o mesmo tenha acontecido com muitos dos presentes. Saí com a alma e o coração agradecidos pela experiência vivida. Plena de amor.
No jornal dizia que o diretor estaria presente na sessão. E como admiro muito o seu trabalho e aprecio os artigos que ele eventualmente escreve no Estadão ou na Revista Piauí, fiz questão de comparecer e não permiti que a preguiça de um domingo ensolarado e a alegação de que o filme com certeza entraria em cartaz falassem mais alto.
Vou pular a parte da fila transamazônica para pegar o ingresso, fila exaltada para comprar um mísero copo d’água, fila mais acalorada ainda para entrar na sala de projeção. (Creio que o assunto foi amplamente abordado no post anterior).
Vamos ao que interessa.
Logo de cara fiquei decepcionadíssima quando Amir Labaki disse que João Moreira Salles não estava lá por conflito de agenda ou sei lá o que. Então, Walter Carvalho (aquele da fotografia estupenda de O Céu de Suely e de tantos outros, Santiago, inclusive) leu uma carta que João Moreira Salles tinha escrito para a ocasião. Nada de mais, agradecimentos, etc e tal.
Mal sabia eu, antes do filme começar, que o diretor estaria presente, sim, o tempo todo, de uma maneira bastante pungente e como não me lembro de ter tido a oportunidade de presenciar em outro filme. Explico. O filme conta a história de Santiago, que foi mordomo da família Moreira Salles durante muitos anos na mansão que eles tinham na Gávea e que Santiago gostava de pensar que se parecia com o Palazzo Pitti (a majestosa construção em Florença onde fica o Giardino Bobolli, que abrigou a dinastia Medici do século XVI ao XIX).
O filme em PB é construído basicamente por imagens da mansão já desabitada e vazia e de uma seqüência de 5 dias (acho que 5, talvez 9, não me lembro ao certo) de gravações no apartamento minúsculo de Santiago no Leblon, quando esse tinha mais de oitenta anos (hoje está morto), captadas há mais de 13 anos.
Santiago é uma figura deliciosa. Um homem argentino que, pelo que pude supor falava diversas línguas (muitas vezes tive dificuldade de entender seu português com sotaque carregado e me vali da legenda em inglês). Santiago passou a vida a compilar a história de famílias nobres e de personalidades das mais variadas e das mais diversas procedências. Histórias de pessoas que ele admirava ou até desprezava, num trabalho minucioso e impressionante. Datilografando e registrando incansavelmente fatos dos mais diversos na sua máquina de escrever, que no filme aparece em sua cozinha diminuta.
Como ele mesmo diz, praticamente não via ninguém no dia-a-dia, e também pouco saía do apartamento há mais de 20 anos. No final de sua vida, Santiago era um homem sozinho, mas não pense nem por um minuto que era solitário. Deixa isso bem claro ao acariciar os milhares de páginas de manuscritos dessas histórias da nobreza mundial, cuidadosamente empilhadas e arrumadas com fitas de cetim vermelha que encomendava de Paris. Todos esses calhamaços eram meticulosamente organizados e dispostos numa estante em seu quarto. E, uma vez por semana, esses personagens saíam para “passear” pelo apartamento, para tomar um pouco de “ar fresco”.
Santiago era um homem bastante culto, conhecedor de música, que tocava piano e era apaixonado por mestres como Rafael e Giotto. Como será que adquiriu essa cultura? Na convivência com a família Moreira Salles e seus ilustres convidados? No início do filme ele conta uma viagem à Itália e uma longa estada em Piedimonte, na casa de uma avó. Não fica claro o quanto de escolaridade ele teve, nem tampouco como se tornou mordomo, mas certamente todo seu vasto conhecimento vinha de uma busca incansável por conhecer esses personagens que teimava em fazer reviver, ou melhor, em manter vivos. Ouso dizer que era como se Santiago vivesse numa atemporaliedade, suspenso no ar, gozando de uma memória vivíssima e pouco comum a pessoas de sua idade.
Poderia citar ainda muitos detalhes desse homem tão singular, tão autêntico, que usava fraque para tocar piano quando os patrões não estavam porque, afinal de contas, como conta para o então menino João, tratava-se de Beethoven. Mas a beleza do filme não está somente na figura maravilhosa do personagem/pessoa que Santiago é. E sim na intimidade que é revelada.
Intimidade do diretor enquanto diretor em busca de realizar o projeto de um filme, na intimidade de um homem que revela memórias da sua vida, da sua casa de infância e adolescência, de sua família, de seus irmãos. Ele é o narrador, que vai nos contando o plano inicial do documentário, como ele provou ser inadequado uma vez na ilha de edição, como voltou a ele depois de 13 anos. O título do festival é emblemático do filme, porque é um documentário sem máscaras, que mostra erros, desacertos, indecisões e indagações do processo todo.
É a voz do diretor, na primeira pessoa, que nos conta o filme inteiro, que serve como fio condutor e que vai generosamente revelando seu processo criativo, suas dúvidas, suas emoções. Mas de quem seria aquela voz que falava na primeira pessoa? Ao final do filme, o narrador “diretor”, conta-nos o que o seu irmão Fernando tinha escrito a respeito da morte do pai de ambos, mas, na realidade, descobre-se nos créditos que Fernando Moreira Salles era quem falava como se fosse João e que, portanto, leu como se fosse o irmão algo que ele próprio tinha escrito. Durante as filmagens com Santiago, ouvimos apenas a voz de uma mulher (que esqueci o nome) e, portanto, acabamos por ter a impressão que era ela que “dirigia” o filme, dando instruções ao personagem do que fazer, de como se portar, pedindo para repetir trechos, fazer determinadas coisas. Onde estava João Moreira Salles? Não era ele quem estava dirigindo o filme? O que fazia quando todas aquelas imagens estavam sendo captadas? Não sei, não tenho como responder. Mas isso pouco importa. Por que ele estava ali, sim, talvez da maneira mais veementemente presente que podia estar. Porque o filme é sobre ele também, e isso não é camuflado em momento nenhum. O texto/roteiro que ouvimos é dele, a história de Santiago se mistura com sua própria.
Por que João Moreira Salles resolveu um dia fazer um filme sobre Santiago? Por que ele era uma figura ímpar? Um material em potencial preciosíssimo? Sim, certamente, mas em minha opinião, principalmente por amor. No final da sessão o filme foi, com razão, calorosamente aplaudido. E creio eu saímos todos também apaixonados por essa bela história de amor, de memória, de nostalgia. Obviamente falo por mim, apesar de suspeitar que o mesmo tenha acontecido com muitos dos presentes. Saí com a alma e o coração agradecidos pela experiência vivida. Plena de amor.

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