Pecados Íntimos
O final infeliz de uma história é capaz de invalidá-la por completo? Infeliz na sua acepção de desastroso? Na vida, um final desacertado para uma grande história não a invalida em hipótese alguma, pode ser lamentável, mas não diminui o que ela teve de memorável até o seu desfecho. Às vezes, muito pelo contrário. No entanto, quando se trata de um filme, não podemos deixar de pensar que o diretor errou na mão, que optou pela saída mais fácil e moralista, e de sair do cinema morrendo de raiva.
Foi assim que me senti no final de Pecados Íntimos, que figura na corrida ao Oscar 2007 com a indicação de Kate Winslet ao prêmio de melhor atriz. Realmente, ela está ótima no papel de Sarah Pierce, uma dona de casa com formação de antropóloga que quer se convencer de que não faz parte do entorno sufocante e vazio das vidas das outras donas de casa que freqüentam o mesmo parquinho onde leva sua filha pequena diariamente. Winslet nos presenteia com uma interpretação sensível e verdadeira, construindo com habilidade essa personagem tão sem rumo e tão desconfortável na sua própria pele.
Desde o começo do filme, aliás, fica estabelecida uma atmosfera de angústia e desespero, que o diretor Todd Field muito habilmente vai deixando cada vez mais densa. A economia de trilha sonora é muito interessante e imprime por vezes um silêncio ensurdecedor, um silêncio que ecoa do íntimo de personagens profundamente infelizes e solitárias. Além disso, a presença de um narrador um tanto irônico, vai carregando com a sua hábil voz as cores da narrativa e os detalhes íntimos das personagens. Field nos mostra suburbanos de mente estreita, cheios de preconceitos e terrores, alguns alimentados pelo medo real de ter a integridade de seus filhos maculada com a volta de um ex-presidiário para a comunidade, homem que havia cumprido pena por exposição indecente a menores. Atente para a antológica cena da piscina pública.
O fio central da trama é o romance entre a personagem Sarah (Kate Winslet) e Brad Adamson ( interpretado pelo fraquíssimo Patrick Wilson). Brad é um homem belo, sustentado pela mulher documentarista (Jennifer Connelly), que por estar desempregado, cuida do pequeno Aaron enquanto a esposa vai trabalhar. Um homem sem perspectivas, com uma mulher que não o valoriza, que cobra mudamente e o tempo todo o dinheiro que ele não traz para casa. O filme traça uma crítica social clara, e também apresenta um alerta vigoroso para o que acontece quando abrimos mão do que é mais precioso nas nossas vidas. Nós mesmos.
Mas e o final de que falei no início? Nos últimos 10 minutos o filme desanda completamente. O passo transformador é quase dado, os laços falsos quase rompidos, mas há um recuo no último instante e a história acaba da maneira mais suburbana possível, no seu sentido mais pejorativo. Saí do cinema irada. Como um filme que é uma crítica a falsidade institucionalizada acaba dessa forma? Quase como se anunciasse a possibilidade premente de punição para o mau comportamento de uns, de retratação de outros? Tudo errado. Muito errado, pensei. Mas, no dia seguinte, não pude deixar de me questionar se a errada no fundo era eu. E que, na realidade, o final não poderia ter sido outro porque aquelas pessoas tinham há muito ultrapassado a porta que levava a saída. Não sei. Fica aqui a dúvida. Há sempre a leitura de que justamente o final constitui a crítica mais contundente do filme.
Enfim, vá, assista e decida por você mesmo.
Foi assim que me senti no final de Pecados Íntimos, que figura na corrida ao Oscar 2007 com a indicação de Kate Winslet ao prêmio de melhor atriz. Realmente, ela está ótima no papel de Sarah Pierce, uma dona de casa com formação de antropóloga que quer se convencer de que não faz parte do entorno sufocante e vazio das vidas das outras donas de casa que freqüentam o mesmo parquinho onde leva sua filha pequena diariamente. Winslet nos presenteia com uma interpretação sensível e verdadeira, construindo com habilidade essa personagem tão sem rumo e tão desconfortável na sua própria pele.
Desde o começo do filme, aliás, fica estabelecida uma atmosfera de angústia e desespero, que o diretor Todd Field muito habilmente vai deixando cada vez mais densa. A economia de trilha sonora é muito interessante e imprime por vezes um silêncio ensurdecedor, um silêncio que ecoa do íntimo de personagens profundamente infelizes e solitárias. Além disso, a presença de um narrador um tanto irônico, vai carregando com a sua hábil voz as cores da narrativa e os detalhes íntimos das personagens. Field nos mostra suburbanos de mente estreita, cheios de preconceitos e terrores, alguns alimentados pelo medo real de ter a integridade de seus filhos maculada com a volta de um ex-presidiário para a comunidade, homem que havia cumprido pena por exposição indecente a menores. Atente para a antológica cena da piscina pública.
O fio central da trama é o romance entre a personagem Sarah (Kate Winslet) e Brad Adamson ( interpretado pelo fraquíssimo Patrick Wilson). Brad é um homem belo, sustentado pela mulher documentarista (Jennifer Connelly), que por estar desempregado, cuida do pequeno Aaron enquanto a esposa vai trabalhar. Um homem sem perspectivas, com uma mulher que não o valoriza, que cobra mudamente e o tempo todo o dinheiro que ele não traz para casa. O filme traça uma crítica social clara, e também apresenta um alerta vigoroso para o que acontece quando abrimos mão do que é mais precioso nas nossas vidas. Nós mesmos.
Mas e o final de que falei no início? Nos últimos 10 minutos o filme desanda completamente. O passo transformador é quase dado, os laços falsos quase rompidos, mas há um recuo no último instante e a história acaba da maneira mais suburbana possível, no seu sentido mais pejorativo. Saí do cinema irada. Como um filme que é uma crítica a falsidade institucionalizada acaba dessa forma? Quase como se anunciasse a possibilidade premente de punição para o mau comportamento de uns, de retratação de outros? Tudo errado. Muito errado, pensei. Mas, no dia seguinte, não pude deixar de me questionar se a errada no fundo era eu. E que, na realidade, o final não poderia ter sido outro porque aquelas pessoas tinham há muito ultrapassado a porta que levava a saída. Não sei. Fica aqui a dúvida. Há sempre a leitura de que justamente o final constitui a crítica mais contundente do filme.
Enfim, vá, assista e decida por você mesmo.

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