Thursday, November 01, 2007

Mostre-se mesmo

Ainda sobre a Mostra. Imaginem um cinema lotado, para uma sessão concorridíssima de um filme chinês de um diretor que é a bola da vez. Imaginou? Muito bem. Sessão atrasada, A e B conseguem finalmente entrar na sala após anos de fila para, claro, sentarem praticamente no colo dos atores, numa sala em que a tal legenda eletrônica só pode ser vista a no mínimo 20 metros de distância, tal a ausência de inclinação das cadeiras. Continuou imaginando? Pois nesse clima deu-se o seguinte:
A – Estou morrendo de sede e quero uma bala. Dá tempo?
B – Vai que acho que dá.
Espreme daqui, contorna dali, A consegue chegar até o corredor que leva à saída. Depois de breves instantes, espreme mais um pouco, pisa no pé do cara que sentava ao lado de B, que chamaremos de C, e A consegue retornar ao seu assento, totalmente esbaforida.
B – Comprou?
A – Comprei porra nenhuma, a fila estava gigante e essa merda não tem nenhum bebedor. Vou morrer de sede até o final da sessão.
Eis então que C se manifesta.
C – Quer um gole? (estendendo uma lata de refrigerante por cima de B)
A – Ai, muito obrigada. (Bebe alguns goles e devolve). Deus lhe pague.
C pergunta pra B – Quer um pouco também?
B – Não, obrigada.
B não resiste e completa – Você não é daqui é?
C – Moro em Curitiba, mas nasci em Brasília. Como você sabe? O sotaque?
B – Não, a atitude.
Fiquei pensando na quantidade de candura necessária para um estranho oferecer sua bebida a uma estranha em um cinema. Me pareceu tão surreal, tão surpreendente e ao mesmo tempo tão banal e corriqueiro. E quando foi mesmo que a gente ficou assim? Tão, tão, tão, seria paulistano? Eu não teria feito o mesmo porque 1) me sentiria constrangida de presumir que a pessoa não fosse sentir nojo de colocar a boca na minha bebida, 2) não quereria colocá-la numa situação embaraçosa de, apesar do nojo, sentir-se obrigada a aceitar minha oferta para não transmitir a sua repulsa e 3) porque eu mesma teria nojo para começo de conversa e foda-se que o estupor não providenciou a própria bebida. Mas que boniteza que ainda existe pessoas como C que fazem esse tipo de coisa com a maior naturalidade e outras, como A, que aceitam o gesto, agradecem e ponto.

Tuesday, October 23, 2007

Mostre-se

A 31a Mostra Internacional de Cinema está a pleno vapor. São simplesmente 461 filmes em cartaz de 19 de outubro a 1 de novembro. Ao todo serão 1.180 sessões. E nem se você tirasse férias e se clonasse conseguiria ver tudo. O que, aliás, poderia ser uma perda de tempo porque nem tudo vale a pena, mas como todas as outras mostras da vida, a gente só descobre depois. No caso, depois de ter perdido o ingresso.

Fico um pouco desesperada nessa época e sempre penso que no ano seguinte com certeza vou tirar uns dias de férias nesse período e com certeza vou comprar a credencial de um milhão de dólares. Nem um nem outro nunca aconteceu e olha que esse é um pensamento anual recorrente. Mas tem males que vêm para o bem. Se eu já fico fazendo uma ginástica emocional absurda para decidir o que ver e quando nas noites depois do trabalho e no final de semana (pela impossibilidade do meu corpo e mente ocuparem mais de um lugar ao mesmo tempo), imagine se o problema se agravasse para o dia todo? E eu tivesse ao meu dispor TODAS as sessões? Acho melhor não.

No passado, tinha porque tinha que assistir aos filmes que com certeza vão entrar em cartaz (e o guia da Folha dá até as datas). Não podia nem aventar a possibilidade de me manter inerte frente a nomes como David Cronenberg, Irmãos Coen, Neil Jordan, para citar apenas alguns desse ano. Simplesmente não podia esperar. Hoje já posso e isso abre espaço para ver os outros. Os estranhos. Os desconhecidos (por mim, pelo menos). Os insuspeitos. Atualmente minha seleção obedece aos critérios mais estapafúrdios. Primeiro vou por diretor (Ainda. Vai que tem um estranho conhecido com mais um longa para me deleitar?). Depois vou por procedência. Por exemplo, vou assistir no domingo a um filme de Burkina Faso. Burkina onde? Exato. Em algum lugar da África. Como é que se pode perder um filme dessa localidade tão pitoresca e provavelmente inóspita, também? Pois é, não se pode. Nessas me meto em algumas encrencas e por vezes tenho surpresas deliciosas. Outro critério é o nome do filme. Domingo fui ver “Todas As Coisas Invisíveis”. Achei o nome lindo, dei uma olhada na sinopse e parti pro cinema. Triste de doer. Pesado de doer. Mas bom. Só acho que nem todas as coisas invisíveis são tão doloridas assim. O filme podia se chamar “Quase Todas As Coisas Invisíveis”, ou ainda “Muitas Coisas Invisíveis”.

Mas no fundo o grande barato da mostra para mim são as descobertas, as esquisitices e a fartura. Ah como é boa a fartura. E sempre tem algum aprendizado que extrapola a tela grande.

Domingo, na fila para uma das sessões tinha uma moça na minha frente que puxou papo. Ela era meio perua beirando o cafona. Usava um anel de pedra rosa, jateado, em formato de coração, que combinava com os brincos. Sentiu? Mas não pára por aí. Estava com um salto altíssimo (nada apropriado para uma maratona cinéfila), uma bolsa dessas pequenas (também no tom do anel) que a gente precisa carregar no antebraço. Tudo combinandinho. Enfim, numa escaneada rápida e preconceituosa, diria que ela era desinteressante e perua e que jamais seria vista numa Mostra Internacional de Cinema. Mas lá estava ela. E era interessante. E TINHA a tal credencial para ver TODOS os filmes. E já tinha visto milhares. Inclusive muitos dos que eu queria ter visto. E ainda me deu várias dicas. E no geral foi uma companhia agradabilíssima na espera sempre chatíssima. Logo fiz uma anotação mental de que realmente posso perder muita coisa nessa vida por confiar num julgamento prematuro e preconceituoso que possa fazer a respeito de qualquer coisa ou pessoa. Never judge a book by its cover, baby. Ou julgue, por sua própria conta e risco.

Tuesday, October 09, 2007

Os supersensíveis

Dizem que a vida é dura para quem é mole. Hmmm. Pode ser. Pode ser que ela seja especialmente dura para os moles. Mas eu prefiro achar que ela é dura e ponto. Não que isso seja necessariamente um drama na maioria das vezes.
Com a dureza da vida, todos lidam de forma diversa. Reclamando, encarando, postergando, ignorando, surtando. O que não falta é gerúndio pro tema.
E já que estamos nessa seara, tem também todo o tipo de pele. Peles mais finas, peles grossas, peles tão grossas que mais parecem crostas de elefante. E dependendo da época ou situação, a espessura da pele pode variar consideravelmente.
Ressalvas feitas, me impressiona e exaspera constatar que os mais afeitos a achaques e melindres normalmente não têm nenhuma consideração pela epiderme alheia. Talvez por suporem que como o mundo lhes deve deferência, o resto da população deva ser composto de paquidermes. Tratam todos com a maior das grosserias e ficam chocadérrimos e ofendidérrimos quando recebem na mesma moeda.
Ora pois, antas são eles!

Tuesday, October 02, 2007

Ode as mãos

É verdade que tenho uma predileção por mãos. Presto atenção nelas. Dou valor a elas. Acho delícia mão gordinha de criança. Acho chique mãos com pele alva. Acho que não preciso comentar mãos com esmalte escuro descascado. E dou especial reparo a essa parte do corpo masculino. Enfim, sou uma apreciadora dessas extremidades dos membros superiores. Fico atenta para seu formato, para sua expressão, para quando se movimentam ou descansam suavemente.
Tem gente que nasce com mãos bonitas (e essa atenta observadora é obrigada a dizer que são raros os casos), tem os que nascem com mãos ordinárias e tem também os que deveriam usar luva por puro decoro.
Convenhamos, se as mãos não fossem tão relevantes, não haveria tantas expressões com elas. Certo? E antes que alguém possa meter os pés pelas mãos e dizer que não são tantas assim, mãos à obra.
Atrevo-me a dizer que a gente quase pode julgar o caráter de uma pessoa por elas. Quem tem a faca e o queijo na mão e não faz nada e nem aproveita as oportunidades, não merece muito crédito ou respeito. Porque, às vezes, mesmo com as mãos aparentemente atadas, tem quem consegue ir além. Amigo que é amigo mesmo, e não só purpurina ou farofa, é sempre uma mão na roda num momento de necessidade. E como gratidão é um sentimento nobre que não se ensina, quando uma mão lava a outra, laços são irremediavelmente atados e ninguém fica na mão. É horrível sair de mãos abanando de uma relação, não no sentido material, mas no metafísico mesmo. Ainda mais quando a gente enfia a mão na massa e faz de tudo pra coisa funcionar. Ou não?

Monday, September 24, 2007

Politicamente incorreto?

Acho um saco gente que segue o livro tim-tim por tim-tim. Gente panfletária que na maioria das vezes nem sequer sabe o que está falando ou defendendo. E o improviso? E o espaço pra espontaneidade? Não tem.
Bem, isso equivale a dizer que sou a favor dos politicamente incorretos, dos que fogem a norma, dos marginais, dos diferentes.
Mas curiosamente, não equivale a dizer que sou a favor de falta de retidão humana e falta de ética. Tenho verdadeiro pavor de falta de integridade e dignidade. Nada mais indigno do que falta de vergonha na cara.
Mas isso é então um paradoxo? Porque se sou a favor dos incorretos, como é que não sou a favor dos amorais? Como é que tenho admiração profunda, dessas de emudecer, por gente que tem moral e consideração por civilidade e alteridade?
Porque uma coisa não é oposta e sim complementar a outra. Só por isso.

Monday, September 17, 2007

Sucesso

Tem um monte de gente sem graça, incompetente, acéfala e tudo o mais de ruim que um ser pode ser que faz sucesso. A mídia vai lá, constrói a imagem da figura e o estupor começa a bombar e a encher o fiofó de ganhar dinheiro. Atores e atrizes sem talento nenhum, cantores e cantoras praticamente desafinados e de uma nota só, para citar apenas exemplos na seara das artes.
Mas não é que de repente tem uma gente merecedora que chega lá? Fico tão feliz. Me dá esperança na humanidade. Na vida. Na justiça divina (porque na Terra não existe justiça, a não ser a eventualmente feita com as próprias mãos). O exemplo mais rápido que me vem à cabeça é o do Wagner Moura. Eita ator bom. Eita delícia que é vê-lo em cena. Um ator de detalhes, que mesmo no moedor da novela das 9 construiu um personagem delicioso, desses vilões que a gente não consegue odiar, com um andar que por si só já vale a sentada em frente da TV. Merecedor de cada centímetro do sucesso que está fazendo.
Sem contar que ele faz parte da categoria feio-bonito. Será que sou só eu que acho homens interessantes atraentes? Mesmo que esteticamente falando não sejam nada inspiradores? Que seja.
Tem também a categoria bonito-feio, quando a boçalidade anula qualquer beleza. Mas isso não vem ao caso.
Enfim, muito axé pra você, Wagner.

Monday, September 10, 2007

Pombinhos

Era uma moça dos seus vinte e tantos anos. Estatura mediana, corpo mediano, inteligência mediana. O rosto, totalmente comum, desses que vemos aos borbotões no dia a dia e que acabam virando papel de parede em meio aos outros elementos do cenário. Mas Cidinha não tinha essa visão de si mesma. Na linguagem corrente, Cidinha “si achava”, e como tal que acreditava ser, tinha um porte altivo, rebolava excessivamente, carregando consigo um corpo que não condizia com sua atitude. Para completar todo esse cenário ordinário, Cidinha era casada com um moço tão mediano como ela. Mas nenhum dos dois sabia disso, então, tudo bem.
Cidinha e Breno, seu cônjuge, tinham se casado cedo e todas as sandices da juventude tinham sido feitas a deux. Os porres e os pés na jaca em todo tipo de jaca que conseguiam encontrar. Em outras palavras, tinham vivido juntos a rebeldia e o desvario, mas agora que a calmaria começava a se anunciar, não sabiam muito o que fazer um com o outro. E um descompasso começou a se instalar, como se fosse um gás tóxico entrando por uma fresta mínima.
Cidinha começou a olhar para outros caras, Breno nunca tinha parado de olhar para outras garotas. Cidinha fantasiava ir um pouco além dos olhares, Breno considerava parar de ir além e ficar só nos olhares. E assim, sem saber, eles se distanciavam a cada dia.
Foi Breno a notar primeiro o distanciamento. De alguma forma que não sabia como explicar, sentia que sua Cidinha já não era mais tão somente sua. E quando mencionou o fato a ela, a reação de Cidinha não poderia ter sido mais reveladora. Defendeu-se com tanta veemência que ficou claro para Breno, que nem sequer tinha tido a intenção de acusá-la para começo de conversa, que ali tinha. E repente juntou os pontos num flash back veloz, como se formasse uma figura numa cartilha infantil. Ela estava tendo um caso. Provavelmente era alguém do trabalho, já que Cidinha não frequentava muitos lugares. Meu Deus, era o cara que trabalhava no departamento da sua melhor amiga. Aquele cujo nome tinha estado sempre presente em todas as coisas que ela contava do seu cotidiano.
Breno sentiu o gosto amargo de bile subir na boca. Sentiu os olhos turvarem-se e o maxilar enrijecer. Então era isso? Então era assim que ela lhe retribuía toda a sua dedicação, todo o seu amor e companheirismo? Não importava que ele tivesse tido inúmeros casos ao longo dos anos, justamente por isso. Foram inúmeros. Não tiveram a menor importância. Breno nunca tinha comido outras mulheres em todos esses anos de casamento mais do que 1 vez. Mas Cidinha, não. Sua Cidinha tinha um amante só e isso era traição demais.
A partir dessa constatação, Breno passou a não acreditar em nenhuma palavra que ela dizia, mesmo se a ida até a padaria fosse totalmente verdade. Mesmo se o happy hour com as amigas tivesse de fato ocorrido.
Passou a vasculhar a bolsa dela no meio da noite, a ler as mensagens que ela trocava com o amante no celular e ficou com raiva de Cidinha ser tão burra e de se deixar apanhar tão facilmente. Se pelo menos ela se forçasse por esconder a coisa toda, ele se sentiria mais respeitado, mas como Cidinha acreditava que ele acreditava que ela sempre tinha sido e sempre seria só dele, não fazia manobras inventivas para não deixar transparecer as coisas.
E foi então que tudo se deu numa quarta-feira. Cidinha chegou mais tarde com uma desculpa que Breno julgou esfarrapada. Breno fingiu que acreditou. Cidinha disse que tinha uma fome de leão. Breno pediu uma pizza. Comeram a pizza e foram para o quarto. Cidinha disse que precisava de um banho antes de se deitar. Breno fechou cuidadosamente as janelas do apartamento e abriu todas as bocas do fogão.